entrevista com Francisco Dias, 02 de outubro de 2016

Francisco Dias, o 'porco-espinho' do Wing Chun

"O próprio sifu me apelidou de ‘porco-espinho’. Eu apenas buscava economizar movimentos, não entrando no jogo do estilo do adversário..."

"Francamente, não que eu queira me gabar, mas qualquer outro teria desistido!"

Francisco Dias, praticante e estudante de Wing Chun Kung Fu desde a década de 70, e um dos mais conceituados discípulos do mestre Lo Siu Chung, diz, em entrevista, que no início, queria somente aprender um estilo de luta, algo que lhe ajudasse a se sair bem nos confrontos de rua.

 

De temperamento forte, não costumava levar desaforo pra casa e, constantemente, voltava machucado, resultado das inúmeras brigas na rua. Sua teimosia rendeu-lhe alguns castigos, dentre eles, ter de socar uma folha de papel por mais de dois anos, durante as aulas do mestre Lo. “Acredito que, de todos os alunos, eu fui o que ele mais judiou, castigou e tratou com mais dureza, tanto nos treinos quanto na educação e orientação. Foi uma tentativa de me fazer desistir de treinar com ele, de me expulsar do grupo de treino que acontecia em sua casa”. Mas Francisco Dias estava determinado e resistiu ao que poucos suportariam. “Francamente, não que eu queira me gabar, mas qualquer outro teria desistido!”, disse.

 

Veja a entrevista:

 

*Erasmo Deterra | Francisco Dias, você é o mais antigo e conceituado discípulo do mestre Lo Siu Chung. Conta-nos como o encontrou, e como eram os treinos. O que mais era exigido, cobrado?

 

Francisco Dias | Eu tinha entre 11 e 13 anos. Meus pais estavam se separando e eu vivia brigando na escola, e em todos os lugares (brigava também com os meus próprios pais); todos os dias eu voltava pra casa machucado, e com as roupas rasgadas. Nessa época, eu já praticava judô. Porém, minha mãe dizia que aquilo - o judô - não era o suficiente e procuraram uma academia de luta. Achamos uma na Rua Augusta, e era nessa academia que o sifu Lo Siu Chung dava aulas. Na época, ele trabalhava no Hilton Hotel. Foi assim que conheci o sifu. Ele, o sifu, dava aulas para um aluno de nome Charles, que me dava aulas, e sifu corrigia o que me havia passado. Eu, por sentir falta de treino de pernas, fui treinar Taekwondo, em Pinheiros, com o mestre Kim, já falecido.

 

Certo dia (por eu gostar de lutar com outros alunos), sifu perguntou-me se eu queria fazer uma luta com seu aluno, de nome Tchu Tchen / Chu Chen (não sei a grafia correta). Lutamos, e depois de eu derrubar esse aluno, o sifu começou a me observar e orientar mais. Mas eu continuava chegando machucado devido às lutas nas duas academias, além das brigas na rua e na escola. Os anos foram se passando e eu me dedicando cada vez mais devido ao sifu me passar treinos específicos. Além de mim, havia dois alunos. Um deles, o Sidney, grande e forte, fisicamente. O outro, de nome Ademir - um dos mais talentosos que conheci -, era um pouco agressivo. Então formamos um grupinho, e treinávamos como loucos, fazíamos ótimas ‘lutinhas’; para animar mais, entrei no CMTC Club, para fazer Boxe, um dos esportes que mais gosto. Tornei-me pugilista profissional, levando todo o meu gosto de lutar para os ringues.

 

Erasmo Deterra | Quando ainda em processo de amadurecimento, tanto no Wing Chun, quanto na arte de viver, chegou a apanhar do mestre? Algum episódio marcante para compartilhar?

 

Francisco Dias | Não saem da minha memória, quatro episódios nos quais sifu testou-me e me levou pra o chão. Em dois deles o sangue saiu pelo nariz. Um aconteceu na Augusta – testando o Wing Chun -, outro na Amaral Gurgel – testando o Taekwondo -, o terceiro, em sua casa – testando o Boxe -, e o último – também testando o Boxe -, na Faria Lima (Associação Paulista de Tai Chi Chuan, na época, dirigida pelo sr. Lalo). Isso sem falar das vezes que apanhei em outras situações! Perdi a conta de quantas vezes apanhei fazendo Chi Sau mais firme, ‘pra valer’; e isso acontece até hoje, quando vamos treinar a fim de testar a minha sensibilidade. E espero continuar a apanhar, e ele a me testar até que eu atinja a perfeição!

 

Erasmo Deterra | Você é de personalidade forte. Já houve algum momento de divergência durante sua busca, prática e estudo do Wing Chun, junto ao mestre? Poderia nos relatar alguma passagem marcante?

 

Bastão de três seções - Saam Zit Gwan (三節棍)

Francisco Dias | Divergências entre mim e o sifu, existem até hoje, isso devido a minha teimosia sobre diversos aspectos; divergências tanto nos treinos, quanto na vida (cotidiano) e tratamentos das pessoas. Eu sou do tipo de levar quase tudo ‘a ferro e a fogo’, e isso gera controvérsias e inimizades, e o sifu sempre me aconselhando, orientando-me, pedindo para eu agir com diplomacia e sensatez.

 

A passagem mais marcante foi quando ele me colocou de castigo por mais de dois anos, sem aprender nenhum movimento novo, apenas treinando e sendo corrigido nos movimentos antigos, além de socar uma folha de papel, enquanto os outros companheiros de treino progrediam, aprendendo técnicas novas e mais uma forma à minha frente! Foi uma tentativa de me fazer desistir de treinar com ele, de me expulsar do grupo de treino que acontecia em sua casa.

 

Francamente, não que eu queira me gabar, mas qualquer outro teria desistido! Aí veio o maior conselho que ele me deu até hoje, quando percebeu que eu não iria desistir. Ele disse-me: “Transforme esse seu maior defeito, em sua maior qualidade; use a sua ‘teimosia’ para evoluir no treino, e na vida, como forma de extrema determinação”. E é o que faço até os dias de hoje, e pretendo fazê-lo para sempre!

 

Erasmo Deterra | O mestre Lo preza pala tradição, preservação de princípios morais, transmissão autêntica. Não agrada ao mestre, a distribuição de diplomas e certificados; para ele, são papéis que podem ser comprados, forjados. Você pensa assim, também?

 

Francisco Dias | Meu caro, eu sou suspeito para responder, porque tudo que aprendi com sifu (Quando ele ensinava mais uma técnica, ou mais uma forma do Wing Chun), é porque ele já havia feito algum teste, ou análise, e julgava você apto a aprender coisas novas. Os treinos que tive com sifu, em sua casa - momento em que mais aprendi -, a prova da compreensão de ter de por em prática os movimentos passados durante cada dia de treino, e uma recordação de prática de tudo que foi ensinado na aula anterior, antes de iniciar os treinos do dia e, no final de cada aula, havia sempre a pergunta: ‘Quem tem dúvida de algo que já vimos?’ Aí, sim, era quando mais aprendíamos. Em minha opinião, os verdadeiros exames e provas, porque não podíamos ter dúvidas daquilo que já havíamos aprendido! Contudo, eu acredito que, para quem ministra, e administra uma academia, a exemplo de você, e do Thomas Pinheiro, os quais são os maiores representantes oficiais do sifu Lo Siu Chung, levando como emblema o nome ‘Lo’, de onde vem o que vocês ministram, é melhor constar exames e provas, como vem fazendo, credenciando quem está apto para que, numa eventual necessidade, dê continuidade aos mesmos ensinamentos, tradições, princípios e respeito; que sejam capazes de manter a fonte de onde tudo surgiu sem, jamais, vender ou forjar certificados, o que ‘sujaria’ o nome do mestre Lo, responsável, em minha opinião, pelo 'Verdadeiro Wing Chun' trazido para o Brasil e, do qual, somos privilegiados, por tê-lo como nosso sifu. 

 

Erasmo Deterra | Você costuma dizer que é ‘de sangue frio’, e de poucas palavras, e já fez uso do Wing Chun ‘para resolver probleminhas’, como costuma dizer o mestre Lo. Se possível, narre alguns de seus feitos, experiências práticas.

 

Francisco Dias | É estranho dizer que sou de sangue frio. Vários já disseram que mesmo quando sou tocado durante uma luta, pareço não me incomodar, permanecendo como uma pedra de gelo. É simples: para mim, não importa ganhar ou perder. O resultado não passa de uma consequência de um bom ou mal preparo. Eu apenas aprecio uma boa luta, e acredito que foi isso que o tempo e a experiência de vários confrontos fizeram comigo! O que resultou noutras consequências: o de usar cada vez menos o Wing Chun, devido essas lutas não durarem muito, resultando em um final realmente rápido. Francamente, o Wing Chun, hoje, não me agrada, pois não há luta! Para uma ‘boa luta’, meu predileto ainda é o Boxe. Cheguei a comentar com o sifu sobre ter terminado muito rápido alguns confrontos, e ele me disse que, ‘devido eu gostar de lutar, logo iria descobrir que Wing Chun não foi feito para lutar, e sim, para 'eliminar quem sabe lutar!' Comprovei isso quando fui obrigado a fazer uso do Wing Chun por algumas vezes contra quem, fisicamente, eu não tinha chance devido a ser mais jovem, forte, alto e mais rápido do que eu; além de, também, ser praticante de outra arte marcial. Devido a esses e outros fatores, eu não pude dar chance para o adversário. Foi muito rápido e, por isto, para mim, não tem graça usar Wing Chun!

 

Erasmo Deterra | Se lhe perguntassem, o quanto aprendeu de mestre Lo, e o quanto está por aprender, o que diria?

 

Francisco Dias | Demorei acreditar que um único movimento é um estilo inteiro, e que o estilo inteiro está em um único movimento. Portanto, por mais que você saiba tudo sobre uma coisa, nunca saberá o suficiente para estar próximo à perfeição e, por estar buscando-a, é que ainda tenho muito que aprender! Também uma frase do sifu, e que nunca vou esquecê-la: ‘Uma vida é pouco para se saber tudo sobre uma única coisa!’ – Lo Siu Chung.

 

E mesmo quando você já sabe o suficiente para passar adiante o que já aprendeu, por incrível que pareça ensinar é o momento em que você mais aprende porque, no meu entender, resolver suas dúvidas já dá trabalho; resolver dúvidas criadas por outros que pensam diferente de você, é o mesmo que assumir dúvidas alheias e considerá-las suas!  

 

Erasmo Deterra | Apesar de ser o mais antigo discípulo do mestre, você nunca se interessou em ter sua própria escola, viver do ensino do Wing Chun. Ou estou enganado?

 

Francisco Dias | Eu estou aguardando o momento para aposentar-me como funcionário público. Formei-me em Educação Física, pós-graduado em Biomecânica; sou Personal Trainer em seis condomínios, e quero viver até o último dos meus dias ministrando aulas de condicionamento físico, recuperando pessoas pós-operadas, lesionados, ex-atletas, sedentários, obesos e da terceira idade. Esta última é a que mais me interessa. Pretendo fazer mestrado também em Biomecânica do Exercício, associada ao Tai Chi a fim de ativar a memória, práticas já comprovadas que ajudam a combater o mal de Alzheimer.

 

Quanto a ter o meu próprio espaço, com relação ao Wing Chun, francamente, não gosto de ensinar Wing Chun. Alguns alunos, a exemplo do Régis, César, Daniel e Yin, vieram pedir-me para que os ensinassem. Eu me recusei. Pediram para o sifu falar comigo, e convencer-me a dar aula. Sifu ordenou-me para que eu ministrasse aulas para eles; a princípio, ficaram contentes, depois decepcionados devido a eu ser perfeccionista. É que só consigo ‘passar’ do jeito que eu aprendi, e se quando o aluno aprender o movimento não conseguir por em prática, irá treinar até ver a eficiência! Simples assim! 

 

Cotovelada - Forma Biu Zi / Biu Tzi (標指)

Erasmo Deterra | Como você definiria as três formas do Wing Chun? Alguma mais importante do que outra, qual da sua preferência, e por quais motivos?

 

Francisco Dias | Siu Nim Tau (小念頭) quer dizer pequena ideia, ideia inicial. É a base de todo o estilo, e é a mais difícil de se aprender pois, é com ela que se começa, e a última a se compreender totalmente! É a que te prepara para as outras, e a que se volta a recorrer devido primar pela simplicidade com que ela resolve problemas que as outras criam, quando surgem dúvidas de como solucionar movimentos (ou situações) que até então, complicaram-se, com Siu Nim Tau, resolve-se!

 

Cam Kiu / Tsam Kiu (尋橋) significa procurar, buscar a ponte. É a que exige maior movimentação e aproveitamento de tudo, em um único movimento, deslocando toda a potência do mesmo (movimento) que sai da cintura! É a forma que amplia a monstruosa força do impacto dos golpes. Essa forma torna o Siu Nim Tau praticamente indefensável quando se executa os movimentos com a potência descoberta no Tsam Kiu!

 

Biu Zi / Biu Tzi (標指) significa dedos apontando, indicando. É a forma que aumenta a precisão dos movimentos focando pontos vulneráveis, ou provocando a vulnerabilidade do oponente, buscando ultrapassar o que aparentemente é uma muralha, achando os vazamentos e as falhas de uma defesa; e o mais importante: interceptar um ataque destruindo não o golpe, mas sim, a intenção do mesmo, quando um ataque começa a sair ela (técnica) faz com que você se antecipe e a intenção (do movimento adversário) é interceptada, reduzindo as chances de reação, ou se livrando daquilo que o interrompeu. E o mais importante: não mostrando o que foi que fez, nem como o fez! Biu Tzi aperfeiçoa e deixa o Siu Nim Tau tão preciso que o torna insuperável.

 

Conceitos

 

Siu Nim Tau | O alvo é o oponente, o objetivo é eliminar quem tem poder para eliminar você!

 

Tsam Kiu | O alvo são as armas do oponente, o objetivo é eliminar o que o oponente tem capaz de eliminar você! 


Biu Tzi | O alvo são as intenções do oponente, o objetivo é eliminar o preparo de todos os movimentos que está prestes a eliminar você!

 

Devido eu ter sido atleta, e ‘viciado’ em fazer ginástica até chegar ao meu limite físico e, algumas vezes, passando dos limites, minha predileção é Tsam Kiu, pois, é ela (a forma) que mais faz uso do corpo. Isto é, do físico e da explosão muscular; para mim, é a mais cruel das três. O oponente é um como um ‘caranguejo’ com garras poderosas e, quando você quebra as garras do oponente ‘caranguejo’, ele acaba de se transformar em alimento para qualquer um que estiver com fome, não encontrando nenhuma forma – mesmo ainda consciente -, se defender!

 

Erasmo Deterra | Sabemos que Wing Chun não têm segredos. Em sua opinião, para ser um bom Wing Chun, o que é necessário, além de uma vontade determinante?

 

Francisco Dias | Para mim, é simples! É buscar a simplicidade, que muitas das vezes, desnecessariamente a complicamos. Aprender um movimento é fácil, saber para o que ele serve é fácil. Porém, explorar esse movimento ao máximo de sua capacidade requer, não somente treino. Requer estudo! Um simples Taan Sau serve para muita coisa, compreender a sua simplicidade na execução para qualquer situação não é simples! Requer estudo e, logo você descobre que um movimento tão simples esconde muitos recursos, e quanto mais você o explora, descobre que você é limitado, e que aquele movimento não tem limites!

 

Taan Sau é um dos princípios compostos por Taan, Bong, Fu, e Jat Zi Zung Ceoi /Yat Tchi Tchun Tchoi (日字中捶), e aí entra a determinação de cada praticante; o quanto se dedica ao estudo, ao treino e a exploração de cada movimento, até descobrir que não existem limites para o emprego dos mesmos. Independente da situação, o mesmo movimento pode resolver praticamente tudo! Se não estiver funcionando, é porque o praticante não estudou o suficiente!

 

Bong Sau - Forma Cam Kiu / Tsam Kiu (尋橋)

Erasmo Deterra | O seu Wing Chun resolve qualquer problema, ou deixa a desejar, em alguma situação em especial? Qual seu ponto de vista quanto ao estilo como arte de combate?

 

Francisco Dias | O estilo foi criado por Ng Mui, sem dúvida, uma mestra em outros estilos. Foi por ela, desenvolvido não somente para lutar, ou mostrar quem é o melhor e, sim, para eliminar quem sabe lutar! Foi criado para se enfrentar alguém que, provavelmente, já era um mestre, independente do estilo do outro. Um estilo criado para se permanecer vivo! Quando se compreende isso no Wing Chun, evita-se usá-lo ao máximo, caso contrário, é arriscado você fazer ‘aquilo’ para o que ele foi criado! Numa situação de apenas uma luta (amistosa, ou competitiva), o Wing Chun deixa a desejar, devido a ter de conter muita coisa. Segundo sifu, meu autocontrole não é dos melhores! Devido a uma simples luta ter algumas regras, (não pode isso, não pode aquilo), ou seu autocontrole é realmente grande ou, não faça uso do Wing Chun! Por isso, para apenas lutar (brincar), prefiro o Boxe. Acredito estar vivo até hoje, graças ao Wing Chun, e à compreensão que sifu me fez ter do mesmo. Rá, rá, rá, sobre a introdução da pergunta, até hoje um bom Bong Sau, de esquerda, sempre pôs fim aos problemas!

 

Erasmo Deterra | Das duas armas do Wing Chun, Baat Zaam Dou (八斬刀), Luk Dim Bun Gwan (六點半棍), alguma lhe é especial, ou você tem preferência por outra, além das do estilo?

 

Francisco Dias | Interessante. Minha preferência é pelas armas que cortam. Gosto da Baat Zaam Dou, e venho treinando! Sou adepto da cutelaria e gosto de facas, tenho até uma pequena coleção, porém, a que eu mais treino das armas que aprendi, é o bastão, a mãe de todas elas. Contudo, minha arma predileta, e a que venho treinando há décadas - o sifu até me trouxe um DVD de um monge, fazendo e explicando a forma, ou Kuen Tou (拳套) dessa arma, e demorei aprender; depois mostrei para sifu e ele corrigiu-me visando apenas o emprego na prática, dispensando a coreografia -, é o bastão de três seções, Saam Zit Gwan (三節棍) o qual, para aprender, machuquei-me muito.

 

Erasmo Deterra | O que representa a 'Família Lo de Wing Chun Kung Fu', para você?

 

Francisco Dias | A família Lo de Wing Chun Kung Fu é, para mim, como se fosse uma ‘mão’. Sifu Lo Siu Chung é como se fosse o braço que conduz essa mão, para fazer o que é correto, o que é justo e o que é respeitoso! Essa mão têm alguns (membros), e podemos chamá-los de dedos. Saliento que não existe nenhum dedo (membros), da referida mão, igual a nenhum outro, podendo haver controvérsias entre eles! Porém, todos fazem parte da mesma mão. Caso não exista respeito - apesar das diferenças dos dedos -, não poderão se unir, formando ou transformando-se em uma mão fechada, em um punho cerrado, poderoso e incapaz de ser detido, bloqueado ou evitado, orientado e direcionado pelo braço - sifu Lo Siu Chung.

 

Régis Miwa | Todos os relacionamentos são baseados em trocas. Então, como você acredita ter influenciado o mestre, no Wing Chun, e na Vida?

 

Francisco Dias | Eu acredito que há relacionamentos que se baseiam em apenas satisfazer a pessoa que está ao seu lado, por um inexplicável gostar. Também há - eu acredito - relacionamentos que vêm de uma responsabilidade assumida, com a satisfação da mesma cumprida e, também, com quem está ao nosso lado. Creio ter influenciado o sifu, a partir do momento em que me acolheu ministrando, principalmente, educação devido à falta que tive motivada pela separação dos meus pais e, por natureza, eu ser um pouco revoltado com tudo isso. Considero o sifu como pai, devido à falta de convivência com o meu pai biológico.

 

No início, era apenas interesse da minha parte, devido eu querer aprender e ter para mim o que ele tinha para ensinar-me, em termos de luta. Contudo, hoje penso e ajo diferente. Sifu pode apenas ficar calado e nada dizer, e não querer ensinar-me mais nada; apenas por saber que estou ao lado de uma ‘sumidade’ que a considero como pai, me basta! Estou satisfeito. 

 

Biu Sau - Forma Biu Zi / Biu Tzi (標指)

Régis Miwa | Em certo momento, o mestre quis que você desistisse do treino e o colocou de ‘castigo’ por dois anos. Como você conseguiu ficar, não deixando a ponte – entre você e o mestre - ser quebrada e, ao contrário, fortalecendo o laço que os mantém unidos até hoje?

 

Francisco Dias | Acredito que, de todos os alunos que ele teve, eu fui o que ele mais judiou, castigou e tratou com mais dureza, tanto nos treinos quanto na educação e orientação.

 

Nós não nos entendemos uma única vez, e fiquei de castigo por dois anos socando uma folha de papel, sem aprender nenhum movimento novo. Porém, acredito que em um relacionamento, que realmente venha durar, não deixando que a ponte seja quebrada, o alicerce dessa ponte baseia-se em duas colunas que sustentam tudo; podemos sacudir a ponte, mas suas colunas não serão abaladas: a coluna devidamente fundida no Respeito, com o qual eu não faltei - talvez seja devido a essa coluna de nome respeito, que ele não me expulsou do grupo que treinava em sua casa. A outra coluna fundada chama-se Humildade e, mesmo eu que gostava - e gosto de lutar -, não o desacatei, apenas aceitei o castigo diante dos meus colegas. Na época, comentaram comigo que aquilo era humilhante, e que eles teriam desistido. Contudo, eu não sou um deles, e orgulho-me de dizer hoje, que minha teimosia reergueu-me. E, até hoje, sifu diz que eu, apesar de gostar de ‘quebrar’ os oponentes, tenho duas colunas sólidas e inabaláveis: Respeito e Humildade. E acredito que são esses dois pilares que nos mantém unidos até hoje!

 

Régis Miwa | Alguma divergência marcante durante os estudos de ‘A Arte da Guerra’ (Syun Zi Bing Faat  孫子兵法), e do (Dou Dak Ging 道德經 / Tao Te Ching)?

 

Francisco Dias | Divergência, em si, não. Esses são meus dois livros de cabeceira. Eu não os leio mais. Já os li, várias vezes. São, para mim, objetos de estudo! O que eu utilizo como conduta, pensamentos e princípios de vida, é o Tao que, para mim, não é uma religião, e sim, uma filosofia a ser empregada no dia a dia. Já A Arte da Guerra – Sun Tzu, uso como estratégia de conduta e atitude para com os antagonistas; é o mais empregado tanto no confronto direto, quanto na administração de um negócio, ou meio profissional. É matéria obrigatória de estudo, até hoje, para os oficiais militares formados em West Point, USA. É interessante como algo escrito há muitos séculos, continua sendo base de estudo de estratégias adotadas pelos exércitos e, por incrível que pareça, os dois livros escritos por sábios impares. Tao Te Ching – Sun Tzu tem como base, no meu entendimento, ‘Que a razão não pode ser sobrepujada pela emoção e, mesmo que emotivamente esteja envolvido, pense e aja com razão!’ 

 

Régis Miwa | Você aprendeu algumas técnicas de massagem com o mestre. Durante os treinos, teve de receber muitas e acabou aprendendo?

 

Francisco Dias | Acredito que, de todos os alunos e discípulos de Sifu, eu sou o que mais recebeu tratamento e experimentou todos os efeitos e reações por tudo o que já me aconteceu, e o que eu fiz acontecer comigo; sempre que me machucava, por isso ou por aquilo, sifu me tratou. E eu, curioso e cheio de dúvidas e perguntas infindáveis, o indagava: ‘Como é essa técnica?’ ‘Por que isso, e por que aquilo?’ Foram técnicas diferentes, desde ter de comer ou tomar um chá específico para curar um machucado interno a aplicações de Acupuntura, Moxabustão, Shiatsu, Do In, Auricultura e Reflexocultura, tudo acompanhado de explicações referente aos Chakras, Meridianos e pontos auxiliares, envolvendo circulação, nervos, músculos e articulações.

 

Aprendi um pouco com o sifu, a ponto de ele me fornecer agulhas e depois de explicar como aplicar - por ele não poder ir-, ministrei em minha mãe, e esposa. O tratamento que mais me chamou atenção foi quando sofri um acidente de carro. Com o impacto contra o meu tórax, a caixa de direção do veículo se quebrou - na época, o uso do cinto de segurança não era obrigatório. Sifu me fez uma visita e, com ele, estava um colega que já não está mais entre nós, mestre Pink. Eu não podia respirar direito. Depois de conversarem entre eles, tomando meu pulso - técnica de diagnóstico que consegue identificar mais de 20 disfunções (desequilíbrio do Chi, no corpo) -, experimentei a mão mais rígida que já senti em toda a minha vida, a do mestre Pink que, massageando pontos no meu peito, me fez tossir e cuspir sangue coagulado e escuro por três dias consecutivos. Depois disso, voltei a respirar normalmente.

 

A última vez que sifu me tratou foi após eu sair do hospital, por eu ter sido atingido com dois disparos de arma de fogo, numa tentativa de assalto. Fiquei 28 dias em coma. Um dos projéteis ainda está dentro da minha cabeça, não podendo ser retirado por estar alojado perto do cérebro; fui tratado novamente pelo sifu e, até hoje, não sei o que é uma dor de cabeça. Devido a essas e outras explicações e orientações do sifu, tenho aprendido um pouco sobre como recuperar pessoas com problemas físicos.

 

Régis Miwa | Uma vez, apontando para o mestre, e para si mesmo, disse: ‘nós, chineses, não bebemos gelado’. O que mais, em você, é chinês? E o que continua muito italiano/latino/brasileiro?

 

Francisco Dias | Acredito que somos o que adotamos como cultura, ou como tradição de uma determinada cultura; noutros aspectos, me considero um pouco chinês, português, italiano e espanhol. Alguns de sangue, alguns de educação, outros por opção.

 

Deve-se evitar tomar gelado porque, segundo sifu, faz mal para as articulações, principalmente para os tendões e ossos. Interessante. Li, tempos atrás, um artigo científico de uma universidade de pesquisa nos USA, que dizia que você pode tomar gelado no calor, porém, o líquido é absorvido pelo organismo após estar na temperatura do corpo, com o intuito de hidratar. Por isso, para se hidratar mais rápido é melhor ingerir os líquidos em temperatura ambiente. Água morna hidrata mais rapidamente. Para quem já foi atleta, assim como eu, é preferível adotar métodos que funcionem!

 

Daniel Paz | Qual o maior desafio que você já vivenciou em todos seus anos de treinamento de Wing Chun?

 

Luk Dim Bun Gwan (六點半棍)

Francisco Dias | Sem dúvida, foi ficar por dois anos socando uma folha de papel. Foi o maior desafio que vivi durante os treinamentos de Wing Chun; ver os colegas aprendendo técnicas novas e você permanecer executando o mesmo movimento, é uma prova de fogo! Contudo, vejo agora que executar o mesmo movimento incontáveis vezes, é o mesmo que aprender coisas novas sobre o que já, supostamente, havia aprendido. Mas eu não havia aprendido a dar socos, apenas pensava que tinha aprendido um simples soco do Wing Chun; parece bobagem, mas ele esconde o que é capaz de fazer, e o quanto você pode concentrar o impacto, o quanto você é capaz de se transformar inteiramente neste soco, o quanto este soco pode penetrar em um indivíduo, o quanto de jogo de punho você pode usar para melhorar o poder do impacto que penetra, mesmo quando você está exausto, e o quanto você ainda pode socar ou ter precisão no mesmo; o quanto você pode ‘enxergar’, e não simplesmente ‘ver’ o que vai socar. E o principal: o quanto você consegue deslocar do seu Tan Tien (Daan Tin 丹田), energia para um simples soco. E não se esquecer de sentir enquanto seu soco toca o alvo.

 

Daniel Paz | Qual a maior lição - em qualquer sentido - que você tirou do Wing Chun?

 

Francisco Dias | Acredito, que, além da teoria e da prática, o estilo pode ser empregado na sua vida, no convívio, nos relacionamentos. No quotidiano. Na vida, mantenha-se dentro daquilo que sabe fazer, sempre aperfeiçoando o que você já sabe. Não entre no jogo ‘do outro’, ou você será derrotado. No convívio, procure pensar assim: você faz Chi Sau com um colega de treino, quer senti-lo evitando seus movimentos e burlar suas defesas; contudo, são colegas tentando evoluir juntos como parceiros e companheiros tentando ajudar uns aos outros, e não adversários. Nos relacionamentos, empregue sempre o princípio que diz: ‘se vier, absorva; se vai, acompanhe; se parou, estabilize; se tem força, equilibre e suavize; se colou, sinta’. Quanto aos sentimentos, não permita que as emoções afetem seu raciocínio, não substitua razão por emoção. Uma boa lição do Wing Chun: Não existe problema sem solução! Você pode não conseguir solucionar um problema de técnica, apenas falta treino e estudo. Pode não conseguir solucionar um problema pessoal ou familiar, falta apenas ter vivência, experiência, maturidade ou consciência da causa do problema; ter essa consciência é ter 50% do problema resolvido. Para os outros 50%, basta atitude! Isto é empregar Wing Chun, é viver.  

       

Daniel Paz | E a maior beleza, que você vê no Wing Chun?

 

Francisco Dias | O meu jeito de enxergar o Wing Chun, é diferente do de ver o Wing Chun. Muitos dizem que Wing Chun é bonito por sua eficiência. Alguns dizem que a beleza está na economia de movimentos durante o emprego; e para outros, Wing Chun é bonito devido à simplicidade. Já outros dizem que a beleza está em simular movimentos da Garça e da Serpente. E têm os que dizem que a beleza está em pegar o espírito destes animais que são quietos, porém, infalíveis nos disparos dos golpes. Dizem, ainda, que a beleza está em assumir a característica da flor da ameixeira, que flora no inverno primando pela resistência (quanto mais rigoroso for o inverno, mais linda é a flor), ou seja, ‘quanto melhor o adversário, mais eficiente é Wing Chun. Para mim, são formas de ver o estilo, e não passa de obrigações para se entender e se aprender. Contudo, eu enxergo a beleza assim: ‘Tudo na natureza nasce de uma ‘mulher’, a monja Ng Mui deu a luz ao Wing Chun. Ela deve ter sido genial, e uma ‘mulher’! Mãe é só uma!

 

Yin Ho | Como surgiu o seu interesse em ver os conceitos do Wing Chun não só como uma arte marcial, mas também, como filosofia que pode ser usada no dia a dia?

 

Francisco Dias | Na realidade, não surgiu o interesse apenas. Algo que você utilize, ou pratique, ou apenas tem como hobby. De certa forma, exige antes de qualquer coisa, disciplina para que este algo - no caso o Wing Chun - se torne eficiente; demorou um tempo para que eu tomasse ciência dos conceitos do estilo. No início, foi apenas para aprender a lutar. Quando comecei a compreender os conceitos, eu não os vi, eu os enxerguei que, se funcionam de uma forma, podem funcionar de diversas outras, em diversas situações, tanto na prática, na teoria, no tratamento, no diálogo, no convívio familiar, bem como no cotidiano, como já me expressei em todos esses casos, e é exigido tanto disciplina pessoal como emocional, bem como o que necessitamos deixar de exemplo.  

   

Yin Ho | A utilização, ou até mesmo a interpretação de cada movimento do estilo varia de acordo com o praticante, seja pelo treino, condição física ou até mesmo preferência. Neste cenário, como foi o seu processo de adaptação da forma de utilização do mestre Lo Siu Chung, para o seu ‘próprio jeito’?

 

Francisco Dias | Desta pergunta eu realmente gosto! É muito interessante. A princípio, a aprendizagem de um movimento dentro da forma de um estilo trata-se de que você se adapte a ele devido haver movimentos que não condizem ao seu físico, ou a sua personalidade. Contudo, é necessário que você, ao realizar o ‘movimento’, faça-o funcionar em sua execução, caso contrário, significa que você não aprendeu do jeito básico como o estilo mostra igualmente para todos os praticantes. E como pode, já que ninguém é igual a ninguém?

 

O tempo vai passando e cada praticante começa a mostrar o seu jeito de efetuar os movimentos, aí as coisas se invertem: são os movimentos e as formas que se adaptam ao praticante mediante seu físico e sua personalidade, desde que os movimentos executados por ele funcionem e tenham eficiência dentro das suas características. Vejamos um exemplo: um praticante aprendeu a defender um soco com um Taan Sau, porém, ele é por natureza, muito agressivo. Adaptou-se e o faz com a intenção de atacar, trazendo o movimento para sua personalidade.

 

Baat Zaam Dou (八斬刀)

Com respeito ao meu jeito de executar as formas que sifu me ensinou, sem fugir dos princípios, que podem ser explicados - para qualquer um - com apenas três peças: Transferidor, Compasso e Esquadro. Assim você consegue provar a eficiência de todo o estilo dentro do aproveitamento dos ângulos e alavancas! Sifu consegue começar um movimento e, caso sofra algum tipo de resistência, ele transforma esse movimento inicial em algo que exija menos do seu físico e penetre com a mesma eficiência, achando o caminho.

 

Quando eu começo um movimento, vou ampliando sua força para que esse mesmo movimento se torne ilimitado em sua eficiência, buscando o caminho, eliminando o que tem pela frente. Os mais talentosos e inteligentes, como sifu, dominam as variações dos princípios e dos básicos; os menos talentosos e inteligentes, como eu, dominam os princípios e os básicos com poucas variações. Aprendemos o mesmo estilo, somos diferentes, temos de torná-lo eficiente. Cada um do seu jeito de executá-lo.

 

Yin Ho | Na sua convivência com o mestre Lo, o que você considera como a sua maior lição aprendida?

 

Francisco Dias | Começar é para qualquer um, seja lá o que for! Continuar fazendo, e nunca parar de fazer, é o que separa os homens dos meninos! Porém, para mim, a maior de todas as lições foi quando o sifu, no meio de um diálogo sobre algumas grandes personalidades do mundo atual, e da história, pediu-me para que eu levantasse minha mão esquerda e dissesse quantos dedos tinham. Obviamente, eu respondi cinco. E disse-me: “Diga o nome de cinco pessoas que você conheceu, ou ouviu falar, que morreu fazendo o que gosta”. De imediato, não me lembrei de nenhum. Então ele me deu uma semana para trazer os nomes. Depois de pesquisar e procurar, consegui citar dois nomes - os quais não vêm ao caso! E eu disse que seria difícil dar nomes aos outros três dedos. Aí ele disse: “Isso não é difícil, o difícil é que um desses dedos leve seu nome, o importante é você contribuir para sobrar menos dedos; viva fazendo o que gosta e morrerá feliz!”.

 

Transforme aquilo que você gosta de fazer em trabalho, e jamais trabalhará!  

 

César Dias | Qual a sua visão do Wing Chun antes e depois de conhecer o sifu? Quando você parou de ‘socar o papel’?

 

Francisco Dias | A primeira questão é simples. Eu, antes do sifu, não sabia o que era Wing Chun, nem sabia que existia um estilo com esse nome. Eu tinha entre 11 e 13 anos. Parei de socar a folha de papel, na casa do sifu, depois de uma pergunta.

 

Após os treinos, sempre havia reunião para tomar chá, sanar algumas dúvidas a fim de melhor compreender as teorias, ou a filosofia. Então aproveitei e perguntei ‘quando aprenderíamos golpes mortais - ou seria apenas quando chegássemos à forma Biu Tzi -, se tinha algum golpe mortal específico, e quando iríamos aprender’. Sifu pediu que todos deixassem as xícaras de chá, - porém, ele levou a dele – e fossem para o quintal; então pediu para o que mais sabia as técnicas do estilo, o mais adiantado e, em minha opinião, o mais talentoso que eu já conheci, me atacasse por três vezes, do jeito que ele quisesse, com ataques diferentes. Podendo ser soco, chute, joelhada ou cotovelada. Esta foi sua ordem! Eu só poderia socar, como se estivesse socando a folha de papel, podendo apenas avançar durante o soco; não era para eu pensar em defesa ou ataque.

 

O primeiro ataque foi interrompido por um soco no plexo solar, tirando o fôlego do colega. O segundo, e o terceiro ataque, devido ele ter tentado chutar, o meu soco acertou-lhe o centro do peito, no osso externo, fazendo-o perder o equilíbrio, levando-o ao chão nas duas vezes. Todos nós olhamos para sifu, surpresos com o ocorrido. Ele deu as costas e disse: “Vamos terminar de tomar o chá, você já sabe um golpe mortal, só não sabe, que sabe!”.

 

Desse dia em diante, eu estava liberado por ele, e sai do castigo de ficar socando a folha de papel nos treinos, com a turma; então, comecei a aprender coisas novas nos treinos que se seguiram. Porém, nunca mais parei de socar, em casa, a folha de papel!   

 

César Dias | Como você definiria a flexibilidade dentro do ‘voltar à forma, não tendo forma’?

 

Baat Zaam Dou (八斬刀)

Francisco Dias | Aparentemente, parece complicado. Mas acompanhe o raciocínio e entenderá a simplicidade da conduta que leva ao emprego. Primeiramente, se aprende a postura levando ao aprendizado da forma com essa diretriz ‘postura’! Segundo: aprende-se para que serve cada movimento da forma! Terceiro: a variação, ou a associação dos mesmos movimentos! Essas são as três primeiras fazes da aprendizagem, isso dentro de cada uma das três formas. Após a compreensão do emprego dessas fazes dentro do conceito de cada forma, chegou a hora de esquecer a forma devido a cada uma delas ter suas características. Aí você descobrirá que não se prender à forma, é tê-la absorvido completamente. E assim, você não mais consegue se livrar delas e, apesar de tê-las esquecido, elas agora são você! E por incrível que pareça, tudo em questão de movimentos, se você seccionar - isto é, deixar o movimento aparecer, individualmente, nitidamente -, verá que ele é, ou está no que você se esforçou para aprender e esquecer. Ou seja, a Forma, explícita como na primeira fase do aprendizado, a Postura, que resultou na posição como é executado cada movimento! Isto é metodologia de aprendizado que resulta no estudo do porque da eficiência na execução da forma, a qual se transformou em você.

 

César Dias | O seu Wing Chun tem relação direta com sua vida social, cotidiana, ou são ‘coisas’ separadas?

 

Francisco Dias | Para mim, está tudo ligado, nada separado! Só depende de como você enxerga, não de como o mundo te deixa ver! Eu já enfrentei um adversário realmente terrível e excelente lutador; e por três vezes eu o vi de frente, o encarei. O confronto foi duro e rápido, com golpes terríveis dos dois lados. E com técnicas realmente aperfeiçoadas, ele sempre voltou melhor cada vez que nos enfrentamos! Para você ter ideia, no nosso último confronto, esse adversário desferiu-me dois golpes: um deles, não conseguiu penetrar - Olho da Fênix - devido eu ter bloqueado do meu jeito; contudo, trincou, mesmo assim, uma costela. O outro golpe - Biu Sau – atingiu-me no olho e, apesar de ter perdido a vista esquerda, consegui aplicar o meu soco de ‘uma polegada’, e ele também não conseguindo ficar de pé, pôs fim ao confronto, indo embora pela terceira vez, cumprimentando-me pela resistência e dando a palavra de que irá voltar melhor no próximo encontro.

 

Se eu vou conseguir vencê-lo novamente, não me importa! Tudo o que eu quero - caso ele não dê seus 100% - é fazê-lo voltar novamente para mais um encontro. Por isso, não deixo de treinar fisicamente, emocionalmente, intelectualmente, estrategicamente, psicologicamente e ferreamente na minha força de vontade! É assim que eu enxergo esse exímio e respeitado adversário: a ‘MORTE’. E que, no máximo, irá derrotar o que me foi emprestado para esta vida: o meu corpo, e não eu!

Entendeu, o meu modo de Enxergar o Wing Chun?
   
César Dias | O seu encontro com o sifu, o que significa em sua vida? É possível definir esse sentimento em uma frase?

 

Francisco Dias | Minha educação foi esse pai quem me deu!

 

César Dias | E quanto ao jargão ‘porco-espinho’, no seu Wing Chun?

 

Francisco Dias | Me apelidaram de ‘porco-espinho’, algumas vezes. O primeiro foi Geraldo, um dos colegas de treino -, na época da rua Augusta (faz tempo); depois, outro colega, o Sidney - quando sifu colocava um no meio, fazendo Chi Sau simplificado, com um colega de cada lado, outro na frente para chutar, e outro atrás; estando eu, portanto, cercado dos quatro lados. Na minha vez, eu nunca me virava para ‘contragolpe’ do que vinha por trás, apenas utilizando os recursos das formas para que isso acontecesse, e o próprio sifu me apelidou de ‘porco-espinho’. Eu apenas buscava economizar movimentos, não entrando no jogo do estilo do adversário.

 

Durante a faculdade, eu coloquei em prática esses princípios contra Wrestling, Jiu Jitsu e Judo. Enquanto eles tentavam me agarrar, eu espetava-os com os golpes do Wing Chun; utilizava como estratégia, nosso estilo. Um tende a colar, e outro tenta agarrar, buscando levá-lo ao chão, enquanto eu bato com o mesmo objetivo, o de levar o adversário ao chão. Geralmente, quem ia para o chão é quem queria me agarrar! Não importa quantos são, ou se está atrás, na frente, ao lado, em cima, em baixo, perto, longe, deitado, ajoelhado, ou de pé; espete-os mesmo que não possa vê-los, sinta-os tocando, ou não. Para que isso aconteça, não mude o que você tem treinado, apenas aperfeiçoe as espetadas que seu estilo te revelou!

 

Mesmo um Leão, ao enfrentar um porco-espinho (dos grandes), se tentar com as garras, espetadas estarão; se tentar com as presas, a cabeça espetada estará. Se tentar sufocá-lo, agarrá-lo, ou abraçá-lo, os pontos e os ‘não pontos’ espetados estarão.

 

DA REDAÇÃO | Entrevista concedida com exclusividade ao site www.deterrawingchun.com.br, de propriedade da Escola Tradicional de Arte Marcial Chinesa. A escola agradece o esforço e gentileza do entrevistado, Francisco Dias, e seus alunos Régis Miwa, Daniel Paz, Yin Ho, e César Dias, por colaborarem com as perguntas. A escola agradece, ainda, ao mestre Lo Siu Chung pois, sem ele, esta entrevista, de conteúdo ímpar, não seria possível.

 

Data da entrevista: 31 de julho de 2016.

Imagens: Álbum de Francisco Dias, com colaboração de Régis Miwa.

 

*Erasmo Deterra - discípulo direto de mestre Lo Siu Chung, e responsável pela Escola Tradicional de Arte Marcial Chinesa.