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O mestre e o discípulo

A caminho de Iguape

A minha iniciação na arte do Wing Chun, com o mestre Lo Siu Chung, não foi por acaso. Aconteceu no momento certo, com a pessoa certa. Estava escrito na linha do destino, tinha de ser assim.

 

Em um dos incontáveis momentos ao lado do mestre, quando íamos para Iguape, experimentei aquilo a que chamamos de Vida Kung Fu. Era 12 de janeiro de 1998. No percurso entre São Paulo e Iguape, eu e o meu mestre conversamos bastante, sobre assuntos diversos. Falamos sobre a paisagem local, sobre o clima, sobre a vida tranquila nas cidades interioranas, a exemplo de Iguape.


No trajeto, eu sempre queria saber mais sobre sua vida, seu aprendizado com seu mestre Wong Wai Chung, como era sua vida na China etc. Entre uma resposta e outra ele, o meu mestre, fazia perguntas sobre a minha vida no interior da Bahia. Era uma troca de experiência, de conhecimentos.

Ali eu vivenciava a Vida Kung Fu. Eu já o conhecia desde 1987, mas aquele momento era impar, singular, diferente. Senti que eu já não era um aluno qualquer, a minha proximidade, nossos laços estavam curtos.

Falamos sobre as ervas medicinais e suas utilidades. Segundo mestre Lo, praticamente todas as plantas existentes na China podem ser encontradas aqui, no Brasil. Não deixei de perguntar sobre a carne de cachorro. O mestre aproveitou e falou também sobre outras carnes, a exemplo da carne de cavalo. O mestre explicou que as carnes de cavalo e de cachorro são energéticas, muito fortes. Esclareceu também que os cachorros usados para abate são criados, tratados para serem comidos, assim como são tratados porcos e outros animais aqui no ocidente. Precisam estar sadios, bem zelados, antes do abate. Com isso pude compreender que tudo é uma questão de cultura, de costume.


Conversamos também sobre armas chinesas, especialmente sobre facões e bastões. Aqui e acolá o mestre interrompia-me e dizia: ‘Você veio aqui para treinar. Mesmo que tenha de fazer outras atividades, treinar em primeiro lugar!’. Já chegando a Iguape, o mestre disse que iria apresentar-me a um amigo seu, sr. Wong.  Sr. Wong é proprietário do restaurante Ton Fon – Vento Leste, em chinês. Chegamos ao restaurante. Após algumas buzinadas, o homem veio nos atender. Após trocas de cumprimentos em chinês, mestre Lo apresentou-me ao seu amigo, dizendo-o que eu era seu aluno, e morava na Bahia. Mestre Lo e seu amigo Wong conversaram bastante, - sempre em chinês. Talvez colocando as novidades em dia. Estavam descontraídos, felizes. Mestre Lo disse-me que falar em chinês, sua língua natural, era mais fácil, permitia-lhes mais naturalidade, expressões certas; além de ser um momento oportuno para não deixarem morrer, ou enferrujar a língua chinesa.

 

Chegando a Iguape 

Paramos defronte a casa de praia do mestre. Eu iria ficar ali, sozinho. Entramos. O mestre Lo abriu portas e janelas. Todas as lâmpadas da casa e bocas do fogão foram acesas. Na cozinha, todas as torneiras foram ligadas; a água escorreu por alguns segundos. Depois de observar o ritual, perguntei ao mestre sobre o seu significado. Em resposta, disse-me que servia ‘para renovar o ar, fazer circular a energia, dar vida ao ambiente’.


Após fazer circular a energia por toda a casa, saímos um pouco. Fomos andar pela cidade. O mestre falou sobre os casarões antigos. Vez por outra uma nova planta era-me mostrada, suas ações terapêuticas e modo de uso. Ali eu vivenciava a Vida Kung Fu. Eu já o conhecia desde 1987, mas aquele momento era impar, singular, diferente. Senti que eu já não era um aluno qualquer, a minha proximidade, nossos laços estavam curtos. Acontecia ali o verdadeiro vínculo entre mestre e discípulo. Circulava em mim um sentimento de prazer, de bem-estar. De felicidade. Ao expressar o meu sentimento, o mestre disse-me que ‘para tudo há um momento, um tempo certo, uma pessoa certa’. E foi ali que tudo se comprovou: o meu encontro com mestre Lo Siu Chung não foi por acaso; sem saber, eu havia encontrado o meu mestre, aquele que iria me guiar na arte do Wing Chun Kung Fu. Eu senti isso quando o encontrei pela primeira vez, mas só naquele momento me foi comprovado. O meu encontro com mestre Lo não foi um acaso, estava na linha do destino. Tinha de ser assim.

 

O discípulo não escolhe o mestre, nem o mestre escolhe o discípulo. O encontro acontece na hora certa, no lugar certo”. - Erasmo Deterra.